A dificuldade para falar corretamente é uma das principais queixas nos consultórios de fonoaudiologia, mas nem todo “falar errado” significa a mesma coisa. Diferenciar atraso de fala e desvio fonológico é essencial para evitar diagnósticos tardios e garantir que a criança desenvolva a linguagem de forma saudável. Pesquisas recentes mostram que o desvio fonológico não é um estágio final do atraso, mas um transtorno específico que interfere na forma como a criança organiza os sons da língua.
A fonoaudióloga Angelika dos Santos Scheifer, especialista em atraso de fala, reforça que a confusão é comum e perigosa. “Atraso de fala e desvio fonológico podem até parecer semelhantes, mas têm origens e tratamentos completamente diferentes. Quando tratamos como se fossem iguais, perdemos tempo precioso de intervenção”, afirma.
Atraso de fala: quando a linguagem demora a chegar
O atraso de fala ocorre quando a criança leva mais tempo do que o esperado para começar a se comunicar verbalmente. Embora muitos pais ainda acreditem que é seguro esperar até os 2 anos, Angelika alerta que isso pode ser prejudicial. “Se a criança não fala as primeiras palavrinhas até um ano e meio, o ideal é investigar. Quanto antes olhamos, antes tratamos, e melhores são os resultados”, explica.
O atraso de fala afeta diversos níveis da linguagem, como vocabulário, compreensão, formação de frases e construção de narrativas. E as trocas de sons não desaparecem naturalmente nesse quadro.
Desvio fonológico: quando a criança fala, mas organiza mal os sons
O desvio fonológico aparece em crianças que começam a falar na idade esperada, mas apresentam trocas persistentes de sons, ou seja, um funcionamento específico do sistema fonológico.
Crianças com desvio fonológico podem ter fala compreensível, porém com sons que não evoluem. Quando essas trocas persistem após os 5 anos, é um importante sinal de alerta.
“No desvio fonológico, a criança sabe o que quer dizer, tem vocabulário e compreende bem. O problema está na organização dos sons. Não é preguiça, não é ‘fase’, e não melhora sozinho. Precisa de intervenção direcionada”, explica a fonoaudióloga.
Quando buscar ajuda
Segundo Angelika, famílias e educadores precisam compreender que atraso de fala e desvio fonológico não seguem a mesma lógica, e ambos devem ser investigados cedo.
Devem ser avaliadas crianças que apresentem:
- primeiras palavras somente após 1 ano e meio;
- ausência de fala até os 2 anos;
- fala de difícil compreensão a partir dos 3 anos;
- trocas de sons que persistem após os 4 e especialmente após os 5 anos;
- frustração, vergonha ou dificuldade para contar pequenas situações.
“A regra é simples: se a fala preocupa, investigue. A intervenção precoce muda trajetórias. A família não precisa e não deve esperar até os dois anos para buscar ajuda”, reforça Angelika.
Ela conclui que a orientação profissional é o caminho mais seguro. “A fonoaudiologia existe justamente para garantir que a criança desenvolva sua linguagem no tempo certo e da forma certa”, finaliza.
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JÚLIA KLAUS BOZZETTO
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