O título remete ao desejo de inventividade, à pulsão instigante e curiosa que move o processo criativo. “Criar, aturar o que eu crio, maturar, transcriar em cima da ideia original, sem perder a espontaneidade”, explica Lívia.
Na trilogia, o disco equilibra a luminosidade de ‘Vinha da Ida’ (2017) com a densidade de ‘Apneia’ (2022). As canções abordam deslocamento, movimento, saudade, amor à distância e impermanência, refletindo a vida em trânsito de quem vive na estrada.
O trabalho reafirma a formação minimalista - sanfona/voz, tuba e bateria - expandida por pedais, efeitos e pelo estúdio como instrumento criativo. “Esse álbum fecha a trilogia dos meus três primeiros, consolidando esse lugar híbrido entre o instrumental e a canção”, resume a artista.
Produzido por Alê Siqueira, que também assinou o primeiro álbum da artista, o disco retoma a parceria com Paulim Sartori, produtor musical em Apneia e agora co-diretor musical em Verve.
A capa, criada com o fotógrafo Tiago Lima - também responsável pelos trabalhos anteriores -, dialoga com os discos passados, revisitando elementos visuais e trazendo pela primeira vez a sanfona em si para destaque. “O acordeon aparece como minha caixa de música torácica, minha máquina de respiro, meu caminho de idas e vindas do fole”, diz Lívia.
O percurso sonoro de VERVE se abre com ‘Caucaia’, em que a sanfoneira dialoga com a voz indiana de Varijashree Venugopal num forró inventivo de sotaques e deslocamentos. Na sequência, ‘Ndoukahakro’ evoca a memória da Costa do Marfim em conexão com a kora e a voz da senegalesa Senny Camara. ‘Quanto Mais Doce’ traz a ternura do amor à distância, enquanto a faixa-título ‘Verve’ expande o espírito criativo do trio em samba diluído e sinuoso. Em ‘Com Você Eu Vou’, o amor aparece como caminho compartilhado; já ‘Mundo Verde Esperança’, de Hermeto Pascoal, abre espaço para uma formação quinteto.
‘Forrógutti’ homenageia Toninho Ferragutti em um forró-choro virtuoso, e ‘Como Se Fosse o Mar’, parceria com Ivan Lins e Thais Nicodemo, mergulha nos mistérios do tempo. ‘História de Uma Cabeça’ traduz em letra e groove as sobrecargas da mente e ganha videoclipe dirigido por Luiz Corrêa, que mistura humor e estética circense para retratar a e o caos de uma cabeça em diálogo com corpo e sentimentos. Para o encerramento festivo, Folia de fole é um frevo baiano para dançar na rua.
SOBRE LÍVIA MATTOS
Nascida em Salvador (BA), Lívia Mattos é acordeonista, cantautora, circense e socióloga. Com seu trabalho autoral, lançou os álbuns Vinha da ida (2017), Apneia (2022) e Verve (2025), e já se apresentou em festivais ao redor do mundo, como o Womex (Espanha), Akkordeon Festival Wien (Áustria), Accordions Around the World (Estados Unidos), Macau International Parade (China), FMM Sines (Portugal), MASA (Costa do Marfim), entre outros. Possui uma sólida carreira como instrumentista: integrou a banda de Chico César por oito anos, participou como solista convidada da Orquestra Sinfônica da Bahia e colaborou em shows e/ou gravações com artistas como Rosa Passos, Badi Assad, Vanessa da Mata, Ceumar, Johnny Hooker, Alessandra Leão, Gero Camilo, entre outros.
FAIXA A FAIXA ASSINADO
1 - CAUCAIA
Instrumental instigante, mesclando a puxada de fole da baiana Lívia Mattos com o gogó indiano de Varijashree Venugopal, numa formação inusitada que também soma a tuba de Jefferson Babu e a bateria de Rafael dos Santos à instrumentação. “Caucaia” é o nome da cidade cearense onde a música foi composta apenas na voz, já que a sanfoneira estava sem seu instrumento na ocasião, gerando um forró levemente torto e livremente aprumado.
Pancada instrumental que mixa influências herméticas e reforça a inspiração que vem dos trânsitos entre diferentes lugares.
2 - NDOUKAHAKRO
Música composta para a aldeia homônima, na Costa do Marfim, que a sanfoneira conheceu quando foi tocar em Abidjan. Compartilha a emoção, o sentimento de familiaridade e o arrebatamento que essa visita provocou nela, bem como os sabores e saberes da terra. O feat com a senegalesa Senny Camara, na kora e voz, expressa a conexão transatlântica da baiana de Salvador com a Costa do Marfim e o Senegal.
Aldeia de dentro, familiar, saborosa, emocionante, transatlântica.
3 - QUANTO MAIS DOCE
O amor de quem vai vem com o amor de quem espera. Canção de doçura com o dengo de quem está longe querendo estar perto. O reverbe do amor que tremula na sanfona e balança a rede. O tempo da saudade demora mais. É uma canção com influência de Dominguinhos e Chico César, com envenenamentos sonoros no fole e na tuba, com aquele especial no meio pra todo mundo cantar junto.
Desejo de quem vai, de quem fica.
4 - VERVE
Essa é a faixa cerne do álbum, concebida para a formação-base desse trabalho: tuba, acordeon e sanfona. Uma música instrumental que explora a versatilidade desses instrumentos, brincando com inversões de funções e desvarios em cima de uma leitura diluída de samba. A verve está nesse espírito criativo, aventureiro, sinuoso, que vai se instigando a cada parte. Essa música começou na estrada, foi trabalhada em diferentes lugares e acabou em casa.
De longe, é um samba sinuoso, que começa onde não se espera e segue em trilha de aventura, na instiga, na verve.
5 - COM VOCÊ EU VOU
Canção terna e ternária, de amor demais, mas não desmedido. De quem vê que no encontro nem todo caminho é doce e largo, mas que topa nadar em rio por vezes raso e salobro. O amor como um caminho de ida, de quem vai, de quem pode ir junto.
Guarânia do sim, do vamos nessa, sigamos.
6 - MUNDO VERDE ESPERANÇA
Música de Hermeto Pascoal que também tem o nome de “Taiane” - a única não autoral do disco e a primeira vez que a sanfoneira grava em seu disco uma música que não é dela... mas é do campeão. O título já revela a poética da composição, que também é estruturada de um jeito interessante: as partes não são repetidas, como de praxe, mas vão se seguindo micromódulos que revelam essa esperança e inventividade no seguir. Para essa música, o “Lívia Mattos Trio” transmuta para “Lívia Mattos Quinteto”, convidando à farra sonora a flauta de Aline Gonçalves (RJ) e as taças de vidro de Tomás Gleiser (RS) - formação pluriestadual que a sanfoneira vinha apresentando em shows.
7 - FORRÓGUTTI
A música foi composta em homenagem ao acordeonista Toninho Ferragutti, grande inspiração para Lívia Mattos, depois de ela assistir a um show dele no ano passado. Sempre um arrebatamento vê-lo tocar, mas havia tempo que ela não o via, o que aumentou a densidade do impacto que desaguou na composição. A faixa tem características de forró com choro, fazendo uma espécie de coletânea de características marcantes da forma de Ferragutti abordar o instrumento, que foram captadas e cooptadas pela sanfoneira.
Forró instrumental da beleza, do virtuosismo e da saliência ferragutiana.
8 - COMO SE FOSSE O MAR
Parceria inédita da sanfoneira com o mestre Ivan Lins e a pianista Thais Nicodemo, a canção nasceu com harmonia classuda e letra afiada, convocando o ouvinte a uma imersão marejada. A poética gira em torno da impermanência, do respiro, da amizade com o tempo e seus mistérios. Arranjo mais aerado, vaporoso, dando espaço para a construção de imagens e narrativas.
Marejo, marulhos na margem do tempo.
9 - HISTÓRIA DE UMA CABEÇA
Essa parceria inédita é com o pianista Thadeu Romano, que compartilhou uma melodia já maturada para a sanfoneira colocar letra - em todos os seus álbuns ela é também letrista das músicas. A narrativa se desenrola em torno das crises, contradições, sobrecargas e devaneios de uma cabeça, que pode ser a de qualquer um.
Incertezas e tropeços no groove.
10 - FOLIA DE FOLE
Frevo baiano, lembrando a herança carnavalesca de Armandinho, Dodô e Osmar. A soteropolitana Lívia Mattos traz, por meio do acordeon, a linguagem da guitarra baiana, com distorções e swing, encerrando o disco e acabando a festa na rua. É uma verdadeira folia de fole, na qual se pode dançar frevo e galope na mesma passada, ao gosto do folião.