Quando você escuta “frete grátis”, “cupom de desconto” ou “promoção relâmpago”, qual é a primeira sensação? Para muitos consumidores, essas palavras acendem uma espécie de alarme emocional e exatamente aí mora o perigo.
Com a chegada de dezembro, a combinação entre Natal e o pagamento do 13º salário cria o cenário perfeito para o consumo impulsivo. Presentes, liquidações e aquela vontade de “fechar o ciclo com chave de ouro” acabam funcionando como válvula de escape para tensões acumuladas.
Segundo dados da Serasa, 7 em cada 10 brasileiros admitem comprar por impulso e se arrepender depois. E as compras online reforçam o problema: 62% assumem adquirir itens não planejados, o que leva 40% a gastarem mais do que podem, de acordo com a CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e o SPC Brasil.
Para o psicólogo cognitivo-comportamental e neurocientista Jefferson Morel, esse comportamento é muito mais emocional que racional. “A compra impulsiva costuma ser uma tentativa de aliviar ansiedade, tédio, solidão ou frustração. O cérebro responde às compras com uma descarga de dopamina, é um prazer imediato, porém passageiro”, aponta.
Morel acende um alerta importante sobre quando o comportamento deixa de ser apenas impulsivo e passa a representar um risco real à saúde mental. “A compulsão por compras é reconhecida como um transtorno do controle dos impulsos. Quando a pessoa já não consegue parar, mesmo percebendo os prejuízos emocionais e financeiros, isso indica que o padrão se tornou doença”, afirma o neurocientista.
Segundo ele, quanto mais tempo esse ciclo permanece ativo, mais o cérebro reforça a associação entre comprar e aliviar emoções, tornando o tratamento mais desafiador. “A pessoa passa a depender do ato de consumir para se sentir ‘bem’. Quanto mais tenta resistir sozinha, mais culpa e frustração sente”, explica.
O psicólogo reforça que há tratamento. Com acompanhamento especializado, técnicas de reestruturação cognitiva e manejo das emoções, é possível retomar o controle e reconstruir uma relação saudável com o consumo.
Como começar a retomar o controle
Antes de chegar a esse ponto, o primeiro passo, segundo Morel, é desenvolver consciência sobre os próprios gatilhos. “Antes de comprar, pergunte: ‘Eu preciso mesmo disso ou estou tentando me sentir melhor?’ Essa pausa simples já ajuda a quebrar o comportamento automático”, orienta.
Outras estratégias recomendadas pelo neurocientista incluem:
• Adiar decisões de compra, aguardando o impulso diminuir.
• Estabelecer limites emocionais e financeiros, registrando gastos e sentimentos.
• Reduzir estímulos, como remover cartões salvos do celular e desinstalar aplicativos de compras.
• Buscar alternativas de prazer, como exercícios, hobbies, meditação ou conversas com pessoas de apoio.
• Procurar acompanhamento psicológico, caso o comportamento gere prejuízos, culpa recorrente ou perda de controle.
Para Morel, o ponto central não é demonizar o consumo, mas entender sua função emocional.
“O problema não é comprar. O problema é quando comprar vira a principal forma de buscar alívio. Com autoconhecimento, é totalmente possível recuperar o equilíbrio”, finaliza.
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RENATA DOS SANTOS PORTELA
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