A inteligência artificial está transformando a engenharia em uma velocidade inédita. Ferramentas de cálculo, modelagem e diagnóstico automatizado já assumem etapas inteiras de projetos que antes dependiam de anos de experiência humana. Mas, para o engenheiro e filósofo Pedro de Medeiros, essa revolução tecnológica traz também um efeito colateral preocupante: a atrofia do raciocínio técnico e da reflexão crítica.
“Estamos diante de um novo tipo de apagão, não elétrico, mas cognitivo. Quanto mais terceirizamos o pensamento para as máquinas, mais corremos o risco de perder o domínio daquilo que projetamos”, alerta Medeiros. “O engenheiro que apenas executa comandos de IA deixa de ser criador e se transforma em operador. E isso é perigoso, porque a tecnologia erra, e o erro, quando vem de um algoritmo não compreendido, é invisível até ser tarde demais”, ressalta.
Segundo ele, o fenômeno se agrava à medida que as universidades e empresas priorizam a eficiência em detrimento da reflexão. “Estamos formando engenheiros que sabem programar, mas não sabem questionar. A IA é uma ferramenta poderosa, mas sem o pensamento crítico que sustenta a engenharia, ela vira uma muleta intelectual”, explica.
Estudos recentes reforçam a preocupação. Pesquisas da Harvard Business Review (2024) mostram que profissionais que dependem constantemente de assistentes de IA apresentam até 30% menos capacidade de tomada de decisão autônoma em tarefas analíticas complexas. “É um dado alarmante. O engenheiro precisa continuar sendo o intérprete das máquinas, não seu seguidor cego”, afirma Medeiros.
Para o especialista, o futuro da engenharia não deve ser uma substituição do humano pela máquina, mas uma integração consciente entre razão técnica e julgamento ético. “A IA pode calcular, prever e otimizar, mas não pode assumir responsabilidade. A essência do engenheiro é unir conhecimento e caráter, e isso nenhuma tecnologia será capaz de reproduzir.”
Medeiros defende um novo paradigma para as carreiras técnicas. “O engenheiro do futuro deve pensar como cientista, agir como gestor e refletir como filósofo. O risco não é a IA pensar demais, é o ser humano pensar de menos”, finaliza.
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JÚLIA KLAUS BOZZETTO
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