Em 2025, a Africarioca entrou em uma nova fase que marca a consolidação de uma ideia que nasceu de forma simples e local, mas ganhou relevância no cenário da estética afro. O que começou em 2018 no quintal da casa da sogra, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, evoluiu para uma marca que une técnica, identidade e autonomia e hoje também ocupa a Pequena África, no Centro do Rio de Janeiro, território simbólico da memória e resistência negra na cidade. A inauguração do novo salão e o lançamento do primeiro produto próprio da marca, o Shampoo Africarioca para dreads, marcaram a expansão de um projeto que nasceu a partir da necessidade de resgatar autoestima e construir soluções criadas por e para pessoas negras dentro do mercado da beleza.
A trajetória de Lucas Preto se consolidou a partir da especialização em estética afro e da criação da técnica Baldlocs, voltada para pessoas com calvície, usando a needle technique (técnica de agulha). Mais do que um método, Baldlocs abriu novas possibilidades de pertencimento estético a quem antes se sentia excluído dos padrões da indústria capilar, ao mesmo tempo, em que formou profissionais e gerou trabalho em diferentes territórios através do projeto Africarioca na Estrada. A expansão da marca, portanto, não se deu apenas pelo aumento de público, mas pela circulação de conhecimento, renda e autoestima dentro da comunidade negra – um eixo estratégico de um afroempreendedorismo que não depende de validação externa para existir.
A chegada da Africarioca à Pequena África carrega um peso simbólico que vai além da abertura de um novo endereço. É a presença de uma marca preta ocupando um território que foi historicamente negado às pessoas negras, apesar de carregarem ali a própria raiz da cidade: o Cais do Valongo, os batuques de Tia Ciata, os terreiros urbanos, o nascimento do samba, as bases da diáspora africana que moldaram a cultura brasileira. Se Santa Cruz representa o início comunitário, a construção na margem e a força da Zona Oeste, a Pequena África representa o retorno – não como resistência, mas como afirmação.
O lançamento do Shampoo Africarioca para dreads completa essa virada. Desenvolvido com pH mais alto (7,5 a 8,0), ação antirresíduos e refrescância de mentol, o produto nasce a partir de uma necessidade concreta de quem usa dreads, não de adaptações da indústria tradicional ou as famosas “misturinhas” improvisadas. É um marco importante num setor que movimenta bilhões, mas onde a presença negra ainda é maioria na ponta do consumo e minoria nas cadeiras de decisão e formulação. A Africarioca entra nesse espaço não como tendência, mas como tecnologia preta.
No Mês da Consciência Negra, a história de Lucas Preto ganha outra camada de sentido: ela revela que estética não é apenas aparência, é estratégia econômica, é continuidade de um legado ancestral em forma de serviço, produto e rede de formação. “Desde o salão no quintal da minha sogra até esta nova fase, a Africarioca sempre foi sobre identidade e autoestima. Inaugurar um espaço sofisticado na Pequena África e lançar um shampoo pensado para quem usa dreads será uma forma de reafirmar que beleza, ancestralidade e inovação podem caminhar juntas. Sinto orgulho de poder ser uma referência para minha comunidade e inspirar outros a valorizarem suas raízes e identidade”, destaca Lucas Preto.
A Africarioca, agora dividida entre Santa Cruz e Pequena África, se firma como um negócio que cresce, mas não se desloca da sua raiz: transforma a estética em futuro, mas não perde de vista a memória.
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Letícia Alves Chaves
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