O duplo homicídio seguido de suicídio ocorrido no Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET/RJ), no Maracanã, constitui um dos episódios mais devastadores e impactantes da crônica criminal envolvendo instituições públicas de ensino. A morte da professora Allane de Souza Pedrotti Matos e da psicóloga Layse Costa Pinheiro, mulheres de trajetória exemplar, profundamente reconhecidas por sua excelência profissional e participação ativa na comunidade acadêmica, trouxe ao debate a urgente necessidade de compreender como e por que a violência extrema pode emergir dentro de ambientes cuja finalidade é educar, formar e promover desenvolvimento humano.
A gravidade do fato uma agressão deliberada a servidoras dentro da Direção de Ensino, por um colega que, até naquele dia, mantinha convivência habitual – mobiliza não apenas a investigação policial, mas também o estudo da motivação e da gênese comportamental do agressor, João Antônio Miranda Tello Ramos Gonçalves, que, após alvejar as duas funcionárias, tirou a própria vida.
Diante da limitação objetiva imposta pela ausência de depoimento do autor, já que o suicídio encerrou qualquer possibilidade de interrogatório, a análise criminológica precisa se debruçar sobre comportamentos antecedentes, dinâmica do fato, escolha do alvo, local e momento, além de dados colhidos de relatos de presentes e elementos de observação indireta. É nesse ponto que a Tríplice Teoria da Delinquência Moral, Vergonha e Medo, formulada pelo Dr. Zema, se mostra particularmente elucidativa.
Fundamentos da Tríplice Teoria da Delinquência do Dr. Zema
Segundo o Dr. Zema, todo ato delituoso grave resulta do colapso simultâneo de três eixos internos:
Moral
Conjunto de limites éticos, freios internos, noções de certo e errado que regulam a conduta.
Quando a moral interna se deteriora, o indivíduo passa a reinterpretar o outro como ameaça, obstáculo ou entidade desumanizada.
Vergonha
Emoção central nos gatilhos de violência extrema. A vergonha profunda, quando não elaborada, converte-se em humilhação, ressentimento ou desejo de restauração de um “prestígio” imaginado.
Vergonha tóxica é uma das molas que transformam frustração em ataque.
Medo
Elemento que, paradoxalmente, tanto inibe quanto catalisa a violência.
Para Zema, o medo, quando não reconhecido e tratado, “estoura para fora”, gerando condutas compensatórias, impulsivas ou vingativas.
A teoria sustenta que nenhum desses vetores isoladamente produz homicídio, mas o entrelaçamento dos três moral deteriorado, vergonha acumulada e medo descontrolado leva à chamada Delinquência Tríplice, forma de violência onde o agressor busca “resolver” um estado emocional intolerável mediante destruição.
Análise do Caso CEFET/RJ Segundo a Teoria do Dr. Zema
O Comportamento Matinal: a Máscara de Normalidade
Relatos indicam que João Antônio chegou ao CEFET pela manhã cumprimentando colegas de forma absolutamente normal.
Esse comportamento é típico de episódios de violência planejada ancorada em dissonância emocional: o agressor cria um “manto de normalidade” para evitar ser interrompido e para sustentar internamente a decisão.
No prisma de Zema, tal conduta indica moral enfraquecida, pois o indivíduo já havia rompido seu vínculo empático. Ele “atuava” socialmente, mas internamente já estava em outra dinâmica psíquica.
A Escolha da Direção de Ensino como Local do Ataque
O ataque ocorreu nas dependências da Direção de Ensino, setor hierarquicamente organizado e responsável por decisões acadêmicas, administrativas e pedagógicas. Há registro de que o agressor manifestava resistência à liderança exercida por uma gestora mulher, conflito que, embora não tivesse evoluído para embates explícitos, indicava tensão latente em relação à estrutura de autoridade.
A escolha de um espaço diretamente associado à gestão pode refletir um sentimento de desvalorização, frustração institucional ou uma percepção distorcida de injustiça e perseguição, elementos frequentemente descritos pela teoria de Zema como associados à dinâmica da vergonha. A vergonha profissional seja baseada em fatos concretos ou construída subjetivamente constitui um dos combustíveis mais recorrentes nos episódios de violência no ambiente de trabalho.
Dinâmica do Crime: Ataque Direcionado e Execução Rápida
Os disparos atingiram pontos vitais das duas profissionais, sugerindo intenção letal clara, seguida de suicídio imediato.
Para Zema, essa sequência caracteriza:
- Colapso moral total, pois a vida do outro deixa de ter valor subjetivo.
- Vergonha tóxica, convertida em ataque direto ao que o agressor simbolicamente identificava como origem de sua dor.
- Medo extremo, voltado não ao ato em si, mas ao futuro – medo de punição, de continuidade do sofrimento emocional, de perda total de controle.
O suicídio pós-homicídio é, dentro da teoria, o ápice da fusão entre vergonha e medo: o agressor destrói o outro para anular a vergonha, e destrói a si para extinguir o medo.
O Pânico Coletivo e a Ausência de Preparo Institucional
Os relatos de alunos e professores mostram desorientação, ausência de protocolos estruturados e tentativa espontânea de autoproteção.
Esse contexto revela que o agressor sabia que encontraria um ambiente desprotegido, o que reduz o risco e potencializa a execução – mais um ponto que, segundo Zema, alimenta a espiral criminológica do medo compensatório: o indivíduo investe contra alvos frágeis para recuperar (de forma distorcida) um sentimento de controle.
Parecer do Criminalista à luz da Teoria do Dr. Zema
Diante dos elementos conhecidos, é possível afirmar que o episódio se encaixa com precisão preocupante na Tríplice Teoria da Delinquência.
A estrutura do fato criminoso evidencia todos os pilares descritos por Zema:
MORAL
Houve ruptura de empatia, objetificação das vítimas e definição prévia do ataque.
VERGONHA
Tudo indica acúmulo de frustrações internas, possivelmente relacionadas ao ambiente de trabalho, ainda que não explicitadas.
A vergonha internalizada teria sido convertida em ressentimento silencioso.
MEDO
Medo de irrelevância, fracasso, frustração ou punição futura.
O suicídio confirma o vértice final da tríplice engrenagem.
Por que o crime aconteceu? A explicação segundo a teoria
Do ponto de vista estritamente criminológico, a dinâmica do fato aponta para o seguinte encadeamento:
- Acúmulo emocional silencioso (vergonha e sentimento de inadequação).
- Construção de narrativa interna de ameaça (medo deslocado).
- Rompimento dos freios ético-morais (desintegração moral).
- Planejamento mínimo e ataque dirigido.
- Suicídio como fechamento da tríplice pressão psíquica.
O agressor, segundo a Teoria de Zema, não age para destruir apenas a vítima, mas sim para destruir o estado emocional que carrega dentro de si.
Trata-se de uma violência voltada tanto para fora quanto para dentro, razão pela qual termina no autoextermínio.
O caso do CEFET/RJ é um dos mais contundentes exemplos contemporâneos de Delinquência Tríplice segundo o modelo do Dr. Zema.
Reúne elementos comportamentais, emocionais e situacionais que ilustram como a combinação de moral deteriorada, vergonha não elaborada e medo internalizado pode deflagrar um episódio de violência devastadora, inesperada e letal.
Para as instituições públicas, o episódio revela:
- necessidade de protocolos de prevenção a ataques internos;
- monitoramento de sofrimento psíquico de servidores;
- fortalecimento de canais de escuta e acolhimento;
- treinamento de emergência para alunos e funcionários.
Embora nenhuma teoria seja capaz de devolver vidas nem explicar plenamente o insondável da mente humana, a contribuição de Zema ajuda a compreender não apenas o que ocorreu, mas por que sintomas invisíveis podem culminar em tragédias visíveis.
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SANDRO FRAGA LUIZ
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