Com quase metade de mulheres e inclusão indígena e PCD, House Mag Festival divulga lineup pautado pela diversidade

De psytrance a techno, progressive, melodic house, tech house e outras vertentes, programação reúne diferentes gerações e trajetórias em uma das edições mais plurais do festival.

House Mag Festival
Diego Jarschel

O House Mag Festival chega neste sábado (19) à sua terceira edição consecutiva no Surreal Park, em Camboriú/SC, com um lineup que traduz em nomes e estilos uma das principais características construídas pelo evento ao longo de sua trajetória: a capacidade de reunir diferentes tribos da música eletrônica sem estabelecer uma hierarquia entre elas.

Com mais de 70 atrações confirmadas, a edição deste ano amplia a dimensão do festival sem abandonar uma escolha que sempre esteve no centro de sua identidade: a valorização dos artistas brasileiros e das mulheres. Entre nomes consagrados, artistas em ascensão, estreias e representantes de diferentes gerações, a programação distribui sua atenção por mais de dez vertentes e diferentes palcos, criando um retrato bastante abrangente da cena eletrônica contemporânea.

É justamente nesse equilíbrio que está uma das forças do lineup. Em vez de concentrar a programação em poucos grandes nomes internacionais, o House Mag Festival aposta em uma combinação na qual artistas estrangeiros dividem espaço com uma quantidade expressiva de brasileiros – muitos deles protagonistas de suas respectivas cenas.

No Ritual, dedicado ao psytrance, essa lógica fica especialmente evidente. O palco reúne alguns dos nomes mais importantes da história do gênero no país e no mundo, como Vegas, Neelix, Phaxe, Burn in Noise, Altruism, Adalamoon, Ekanta, Claudinho Brasil, GMS, V.Falabella e Sonic Massala. A programação também estabelece reencontros importantes: Vegas, Altruism, Adalamoon, Ekanta e Claudinho Brasil retornam ao festival, enquanto Neelix, Phaxe, GMS e Burn in Noise fazem sua estreia nele.

O resultado é uma escalação que aproxima diferentes momentos do psytrance. De artistas com décadas de estrada a projetos que continuam expandindo os limites da música psicodélica, o Ritual reúne experiências distintas dentro de uma mesma cultura de pista.

A presença internacional, portanto, aparece como parte de um intercâmbio. Neelix, um dos maiores representantes do progressive trance contemporâneo, e o dinamarquês Phaxe estão entre os nomes estrangeiros de maior peso. GMS, pioneiro do gênero, acrescenta ainda uma dimensão histórica à programação.

Do lado brasileiro, artistas como Vegas, Burn in Noise, Altruism, Ekanta e Claudinho Brasil representam diferentes gerações e linguagens de uma cena que ajudou a construir a própria cultura de festivais no país.

Adalamoon, mexicana radicada no Brasil, aparece ainda em uma posição particularmente simbólica: embora estrangeira de nascimento, sua trajetória artística está profundamente conectada à cena nacional.

Mulheres no centro

Se a valorização dos artistas nacionais é uma característica histórica do House Mag Festival, a presença feminina também está longe de ser uma novidade. Ao longo das edições, o evento vem construindo uma programação que coloca mulheres em posições de protagonismo, e 2026 mantém – e amplia – essa característica.

Nomes como Altruism, Adalamoon, Ekanta, Adria, BLANCAh, Bruna Strait, Devochka, Ella Whatt, Elle, Eva Dlong, Fernanda Pistelli, KÁ Seixas, Mai Lawson, Nadja, Nihanna e Olga Korol aparecem em diferentes pontos do lineup, atravessando gêneros, gerações e experiências profissionais.

Há desde artistas que já ocupam posições consolidadas no circuito internacional até nomes de uma nova geração. Com Morttagua, BLANCAh, por exemplo, leva o encontro de duas trajetórias brasileiras fundamentais para a consolidação do progressive e do techno melódico nacional.

Bruna Strait representa uma vertente mais próxima da house e do tech house, com uma carreira internacional que já passou por palcos como Rock in Rio e Lollapalooza.

Adria, por sua vez, acrescenta uma identidade marcada pelo acid e pelo indie dance, além de sua atuação à frente do G/LRS, coletivo voltado à valorização de mulheres na música e na moda. Ella Whatt, com mais de 15 anos de trajetória e experiências internacionais anteriores ao seu projeto solo, traz ao festival uma sonoridade que passeia pelo indie dance, progressive e elementos de acidez.

A diversidade também aparece em trajetórias como a de KÁ Seixas, que leva para a música eletrônica referências sonoras do Norte do Brasil, e Nihanna, que pela primeira vez apresentará um set de progressive trance, dando início a uma nova fase de sua trajetória no palco Ritual.

Entre as atrações internacionais femininas está Olga Korol, ucraniana radicada em Berlim e responsável pela Body Parts Records, além de Mai Lawson, argentina que acumula apresentações por diferentes continentes e divide cabines com nomes importantes do progressive e melodic house.

Inclusão na cabine

A diversidade do House Mag Festival também se manifesta na presença de artistas PCD e neurodivergentes que ocupam a programação não apenas como público, mas como parte da própria construção artística do evento. É o caso de Aloss, TheozinhoPK e AUTISDAY, três nomes que têm em comum a relação com a House Mag Academy e que chegam ao festival por caminhos diferentes.

Afonso da Luz Loss, conhecido como Aloss, é um DJ e produtor surdo e ex-aluno da House Mag Academy. Ele estreou no festival na edição de 2025 e retorna em 2026, desta vez no Raw Room, levando novamente sua experiência para a cabine e ampliando um percurso que começou dentro da própria escola.

A história de The, o TheozinhoPK,  também nasceu na House Mag Academy. Aos 10 anos, o garoto, que tem deficiência visual em decorrência de um glaucoma congênito, encontrou na discotecagem uma forma de transformar em realidade um sonho que já havia colocado no papel durante uma atividade escolar. Desde cedo ligado à música, ele toca cajón e percussão e também já estudou teclado. Depois de conhecer a escola, iniciou as aulas com Brandão e, ao longo da formação, teve seu talento reconhecido pela equipe da Academy, que lhe deu uma bolsa integral.

David, conhecido como AUTISDAY, foi diagnosticado dentro do espectro autista e encontrou na música eletrônica uma forma de expressão que também tem um papel importante em seu desenvolvimento. A discotecagem contribui para sua organização cognitiva, regulação emocional, desenvolvimento de habilidades sociais, autoestima, atenção sustentada e expressão criativa. Desde que iniciou sua formação na House Mag Academy, em 2025, David vem desenvolvendo sua técnica e já teve algumas experiências como DJ.

A participação dos dois meninos coloca a inclusão diretamente no centro da programação do House Mag Festival. Theo e David são os dois artistas mais jovens a ocupar o palco Ritual nesta edição e abrem o evento em um B2B inédito, lado a lado com artistas de diferentes gerações e trajetórias da música eletrônica.

A escolha também reforça uma conexão que atravessa toda essa história: a House Mag Academy como espaço de formação e descoberta de novos talentos. A presença de Aloss, TheozinhoPK e AUTISDAY no festival mostra como esse trabalho pode se transformar em oportunidades concretas de ocupação da cena, levando diferentes experiências e formas de perceber a música para dentro da pista.

Um lineup que atravessa gerações

Outro elemento que chama atenção é a convivência entre nomes de enorme reconhecimento e artistas que representam novas possibilidades para a música eletrônica.

No Nomad, dedicado ao house e tech house, estão nomes como Fatsync, Miane, Fezzo, Juicce, Devochka, Gustavo Mota e Bruna Strait. É uma pista que conecta diferentes momentos da cena, indo de artistas brasileiros em forte ascensão internacional a nomes estrangeiros que chegam pela primeira vez ao país.

Fatsync é um dos exemplos dessa nova geração brasileira com alcance global. Com dezenas de milhões de streams e lançamentos pela Spinnin’ Records, o artista já recebeu suporte de astros como FISHER, Martin Garrix, Don Diablo e Mau P.

O duo FEZZO, formado por Paulo Junior e Amilton Neto, chega em um momento particularmente forte, depois de lançamentos por Sony Music UK e TH3RD BRAIN, posições de destaque no Beatport e suporte de artistas como FISHER, Chris Lake, Michael Bibi e Vintage Culture.

Juicce, dono de faixas como “Tek Tek Tek”, lançada pela Spinnin’ Records, representa outro nome brasileiro que vem atravessando fronteiras, enquanto Miane – única mulher no mundo a ganhar remix de Chris Lake – chega para sua estreia no Brasil.

No Raw Room, a diversidade se expande por house, tech house e outras linguagens contemporâneas, com nomes como Ella Whatt, Deeper Purpose, LouLou Players, a argentina Lolu Menayed e Eric Terena, cuja presença carrega uma dimensão que ultrapassa a pista.

Eric Terena leva ao festival seu conceito de “ancestrônico”, construído a partir do encontro entre música eletrônica, cantos tradicionais, instrumentos indígenas e sons captados da natureza. Artista do povo Terena, do Mato Grosso do Sul, ele transforma a pista em espaço de afirmação cultural e representatividade, levando a ancestralidade indígena para um dos grandes festivais de música eletrônica do país.

No Bells, a programação se volta ao progressive, melodic house e techno, reunindo BLANCAh & Morttagua, Fernanda Pistelli, Patrice Bäumel, Mai Lawson e Murphy.

A presença de Patrice Bäumel marca sua estreia no House Mag Festival e acrescenta ao lineup um dos nomes mais respeitados do techno melódico internacional. O alemão radicado em Lisboa construiu uma carreira associada a selos como Kompakt, Afterlife, Anjunadeep, Crosstown Rebels e Get Physical.

Outro destaque internacional é Sam Shure, DJ e produtor baseado em Berlim, conhecido por uma sonoridade melódica e cinematográfica que aproxima emoção e energia. Com mais de 65 milhões de streams, lançamentos por TAU, Magnifik e CORE, além de colaborações e suportes de nomes como Mind Against, Dixon, Adriatique e CamelPhat, ele representa uma das faces mais sofisticadas da programação internacional de 2026.

Diferentes formas de ouvir música

Embora os palcos tenham identidades próprias, o lineup do House Mag Festival não parece interessado em transformar a música eletrônica em compartimentos estanques. House, tech house, progressive, melodic house, techno, indie dance, psytrance e outras vertentes se cruzam ao longo da programação, permitindo que o público transite entre diferentes universos.

Essa variedade é reforçada ainda pelo Church by Botanic, a famosa igreja do Surreal Park, que, pelo terceiro ano consecutivo, traz a curadoria da label catarinense Botanic, conceituada na cena minimal. Nesta edição, o espaço de pegada house minimalista apresenta Per Hammar B2B Olga Korol, Agustin Clark, Botanic Soundsystem, Disco Gang, Discotecaio, Holz, Lofi Department e Gusxtavo.

O encontro entre diferentes estilos é, no fundo, uma extensão do próprio conceito do festival. A ideia de reunir tribos distintas em um mesmo espaço significa justamente permitir que diferentes públicos descubram novos sons, artistas e perspectivas.

Com mais de 70 artistas, mais de dez vertentes, diferentes gerações e uma presença brasileira e feminina impossível de ignorar.

O lineup funciona como uma declaração sobre o tipo de festival que a House Mag quer continuar construindo: um espaço em que diferentes tribos possam dividir a mesma pista sem que nenhuma precise deixar sua identidade do lado de fora.

Serviço

House Mag Festival

Local: Surreal Park – Av. João da Costa, 3051 – Distrito Rio do Meio, Camboriú – SC
Data: 19/09 (sábado)
Horário: A partir das 17h
Atrações: Vegas, Neelix, Phaxe, GMS, Fatsync, Miane, FEZZO, Juicce, Ella What, LouLou Players, Lolu Menayed, Fernanda Pistelli, Patrice Bäumel, Mai Lawson, DJ Murphy, BLANCAh B2B Morttagua, Per Hammar B2B Olga Korol, Agustin Clark, Botanic Soundsystem e muito mais
Ingressos: Último lote a partir de R$ 220,00 via Blue Ticket