A engenharia de custos atravessa um dos seus momentos mais determinantes no Brasil. Além do avanço tecnológico e da consolidação de metodologias globais, o setor enfrenta agora os impactos profundos da Reforma Tributária, um marco que deve alterar a composição do orçamento, a formação do BDI (Bonificação e Despesas Indiretas), a estrutura dos contratos e as premissas econômico-financeiras das obras a partir de 2026. Diante desse novo cenário regulatório, a precisão técnica, a gestão de riscos e a previsibilidade passaram a ser ainda mais essenciais.
A transformação digital também acelera essa mudança. Inteligência artificial aplicada à perícia, automação de análises de disputas, modelagem integrada de dados, governança de riscos e diagnósticos avançados de improdutividade e atrasos estão remodelando processos e tornando mais robustas as bases técnicas usadas em orçamento, auditoria e administração contratual.
Foi nesse contexto que a comunidade técnica se reuniu no XIII Encontro Internacional da AACE Brasil, realizado em novembro, em São Paulo (SP). Com mais de 60 especialistas nacionais e internacionais, o encontro funcionou como um ponto de convergência para entender os desafios estruturais dessa nova fase e discutir caminhos práticos para adaptação.
“A engenharia de custos vive um momento de celebração, aprendizado e troca de experiências entre os principais especialistas do país e do mundo”, afirmou a presidente da AACE Brasil, Inaiara Marini. Ela lembrou que a associação, representação oficial da AACE International no Brasil, integra uma rede global presente em mais de 100 países desde 1956 e mais de 9.000 membros no mundo, visa promover as boas práticas da engenharia de custos, fortalecendo padrões técnicos que garantem precisão, transparência e qualidade nas análises e nos processos e, dessa forma, disseminar conhecimento técnico reconhecido mundialmente”.
IA na perícia, nos contratos e na tomada de decisão
A transformação digital dominou os debates desta edição. Painéis mostraram como ferramentas de IA e machine learning estão sendo aplicadas ao diagnóstico de claims, análises de improdutividade, modelagem de riscos, administração contratual e detecção de anomalias em cronogramas.
Os especialistas ressaltaram que algoritmos já aceleram auditorias, reduzem subjetividade e criam trilhas técnicas mais consistentes para decisões de engenharia e de governança. Esse movimento, afirmam, tende a se intensificar à medida que metodologias internacionais se tornam mais disseminadas no país.
A seção brasileira da AACE, formalizada em 2012, tem desempenhado um papel chave nessa maturação técnica. Desde então, vem ampliando a capacitação, fortalecendo certificações globais e alinhando o país às melhores práticas internacionais em custos, riscos, cronogramas e claims.
Hoje, mais de 120 práticas recomendadas orientam contratações, auditorias e perícias no Brasil, promovendo uniformidade, transparência e previsibilidade — o que posiciona o país como líder latino-americano na adoção desses padrões.
De acordo com Inaiara, o impacto dessas diretrizes já é mensurável: “Registramos redução média de 30% em aditivos contratuais de custo e prazo quando as práticas são aplicadas desde a fase de viabilidade”, afirmou. A presidente destacou ainda a importância da padronização técnica para reduzir conflitos e estabelecer bases sólidas de escopo, prazo e riscos.
“As contingências e reservas financeiras orientadas por métodos probabilísticos e estatísticos eliminam valores arbitrários e fortalecem a fundamentação técnica dos claims. Isso amplia a segurança jurídica e qualifica a documentação dos projetos”, completou.
Reforma Tributária: novas regras e novos desafios
Os debates sobre a Reforma Tributária tiveram grande destaque. Especialistas analisaram o impacto das novas regras no BDI, a transição para um imposto unificado, o fim gradual da desoneração da folha e as consequências econômicas e operacionais para obras públicas e privadas.
A avaliação consensual foi que a reforma exige um salto de maturidade técnica no setor. O orçamento precisará ser ainda mais preciso, lastreado por métodos reconhecidos e capaz de proteger o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos.
“Vivemos um momento economicamente delicado, com incertezas regulatórias, mudanças legislativas constantes e impactos diretos sobre a construção”, afirmou Inaiara. Ela ressaltou que, com a reforma em andamento, a necessidade de fundamentação técnica torna-se ainda mais urgente: “Com a criação de um novo modelo tributário, redução de benefícios fiscais e revisão de alíquotas, não há espaço para estimativas sem rigor. A precificação precisa ser sólida, padronizada e tecnicamente defensável.”
Segundo a presidente, esse cuidado não é apenas recomendável, é determinante para evitar prejuízos. “Uma obra paralisada sempre se torna muito mais cara do que teria sido caso o orçamento tivesse sido corretamente estruturado desde o início”, disse, citando sua experiência de 30 anos na área.
O CEO da AACE International, Michael Kobylka destacou o nível técnico alcançado pela seção brasileira e afirmou que o encontro teve dimensão comparável à International Conference e Expo 2025, realizada em Anaheim, nos Estados Unidos. “Estou muito impressionado pela seção brasileira. Este é um evento incrível que mostra a força da nossa comunidade aqui. É um dos encontros mais notáveis da nossa área que já participei”, declarou.
O que fica deste ciclo
A XIII edição do Encontro Internacional da AACE Brasil evidencia que o país vive um momento de avanço técnico, consolidação de padrões e expansão da cultura de dados. A engenharia de custos entra em uma nova fase, marcada pela inteligência artificial, pela automação, pela governança de riscos e pelas mudanças estruturais trazidas pela Reforma Tributária.
Essa combinação reposiciona o setor e define o que será, daqui em diante, a maturidade necessária para garantir previsibilidade, continuidade das obras e competitividade no ambiente público e privado.
Sobre a AACE Brasil
A AACE Brasil é a seção oficial da AACE International — associação fundada em 1956 e reconhecida mundialmente como a principal referência em Engenharia de Custos, Planejamento e Controle para os setores de Engenharia, Infraestrutura e Construção.
Presente em mais de 100 países, com 9.000 membros no mundo, a AACE mantém uma comunidade global de especialistas e um corpo de conhecimento robusto que inclui mais de 120 Práticas Recomendadas, o Total Cost Management Framework e outros guias técnicos que cobrem estimativas, riscos, valor agregado e gestão contratual. Desde 2012, a seção brasileira adapta e difunde esse patrimônio ao contexto nacional, oferecendo certificações internacionais, acesso a uma biblioteca digital com milhares de publicações e uma rede ativa de profissionais que colaboram para elevar a previsibilidade de custos, aprimorar cronogramas e impulsionar a excelência técnica nos grandes empreendimentos do país.
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JULIO CESAR MATOS DELGADO
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