Assédio Geracional: o novo desafio das empresas
A advogada trabalhista Daniela Brum explica como prevenir conflitos entre gerações e construir ambientes de trabalho mais saudáveis e éticos
HABLA FM
25/10/2025 14h22 - Atualizado há 1 mês
Na imagem Daniela Brum, imagem concedida pela entrevistada para fins jornalísticos
O ambiente de trabalho nunca foi tão diverso. Em uma mesma equipe, é possível encontrar profissionais que começaram a carreira antes da internet dividindo espaço com jovens que cresceram no universo digital. Essa mistura de experiências e visões pode ser uma grande vantagem competitiva, mas, quando mal administrada, abre espaço para um fenômeno cada vez mais comum: o assédio geracional.
Segundo a advogada trabalhista Daniela Brum, trata-se de uma forma de conflito baseada nas diferenças de idade, valores e estilos de trabalho. “Quando um colaborador é desqualificado por ser muito jovem, ou quando um profissional mais experiente é isolado por não se adaptar à tecnologia, o que parece uma divergência de gerações pode configurar assédio moral”, explica. Nos últimos anos, os casos de assédio moral cresceram significativamente no país. De acordo com dados da Justiça do Trabalho, o número de novas ações relacionadas ao tema aumentou 28% entre 2023 e 2024, ultrapassando a marca de 116 mil processos. Esses números revelam não apenas a gravidade do problema, mas também a urgência de repensar as relações corporativas em um contexto cada vez mais multigeracional. Quando a diferença vira barreira
Conflitos entre gerações são inevitáveis, mas tornam-se preocupantes quando há desrespeito, exclusão ou humilhação. Um levantamento da Gi Group Holding mostra que mais da metade dos profissionais brasileiros afirma já ter percebido vieses ligados à diversidade no ambiente de trabalho, e a idade é um dos fatores mais citados. Outro dado relevante vem da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): 18% dos trabalhadores acima dos 45 anos dizem ter sido preteridos em contratações por causa da idade. Esses números confirmam o que muitos profissionais sentem na prática: o preconceito etário, também chamado de “etarismo”, continua presente nas empresas. E, quando aliado a choques culturais entre gerações, pode gerar situações de assédio que comprometem não só o bem-estar das pessoas, mas também a produtividade e a reputação das organizações. O papel das lideranças e do RH
Para Daniela Brum, a solução passa pelo fortalecimento da cultura ética e pelo preparo das lideranças. “A empresa precisa criar pontes entre gerações, e não muros. Isso começa pela escuta ativa e pela valorização da experiência e da inovação em igual medida”, defende. Ela recomenda que os departamentos de Recursos Humanos adotem práticas que promovam o diálogo intergeracional, como programas de mentoria cruzada e treinamentos sobre diversidade etária. Além disso, políticas internas e códigos de conduta devem deixar claro que o respeito entre gerações é um valor institucional, e que qualquer forma de discriminação será tratada com seriedade. Segundo dados da RAIS (Relatório Anual de Informações Sociais), mais de 13 milhões de brasileiros com 50 anos ou mais estão empregados, mas ainda enfrentam dificuldades de valorização profissional. Do outro lado, jovens da geração Z têm sido alvo de críticas por priorizarem flexibilidade e propósito, uma diferença que, sem mediação adequada, pode se transformar em conflito. “A boa liderança é aquela que reconhece que cada geração tem uma contribuição única”, afirma Daniela. “As empresas que conseguem integrar essas diferenças ganham em inovação, engajamento e clima organizacional.” Prevenção como parte do compliance
O assédio geracional não deve ser tratado como um problema isolado de convivência. Ele está diretamente ligado às práticas de compliance e governança corporativa, áreas que hoje têm papel central na gestão de pessoas. Para Daniela Brum, prevenir passivos trabalhistas exige olhar além das normas: “Mais do que revisar contratos, é preciso revisar comportamentos. O risco jurídico nasce da cultura”, reforça. Empresas que adotam programas de treinamento contínuo, estimulam a comunicação respeitosa e mantêm canais de denúncia acessíveis reduzem significativamente o risco de ações trabalhistas e fortalecem sua imagem no mercado. O desafio é transformar diversidade etária em ativo estratégico, e não em fonte de tensão. Um caminho possível
À medida que as relações de trabalho se tornam mais complexas, a empatia e o respeito entre gerações deixam de ser virtudes e passam a ser exigências de sustentabilidade empresarial. O futuro do trabalho dependerá da capacidade de unir a sabedoria de quem já percorreu longos caminhos com a ousadia de quem está começando. Para Daniela Brum, “o verdadeiro progresso corporativo acontece quando diferentes gerações deixam de competir e passam a cooperar, cada uma contribuindo com o que tem de melhor”.
Contribuiu para esta matéria a especialista:
Daniela Brum é advogada especialista em direito trabalhista empresarial, com 29 anos de experiência em consultoria preventiva para empresas e departamentos de RH. Sua trajetória combina atuação no contencioso e na prevenção de passivos trabalhistas, além de ministrar palestras e treinamentos corporativos sobre compliance, governança e prevenção de assédio moral e sexual. Autora do livro "Assédio Moral e Sexual nas Relações de Trabalho – Prevenção e Combate", lançado pela Editora Mizuno, Daniela é referência em direito trabalhista no Brasil, com foco em cultura ética e segurança psicológica no ambiente corporativo. Livro disponível para venda: Assédio Sexual e Assédio Moral nas Relações de Trabalho — Editora Mizuno Contato e redes sociais: @danielabrum_adv no Instagram Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
ROBERTA FABIANI DA TRINDADE
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