“Boa noite, povo! Sou eu, cheguei!”. É com essa saudação que M.a.r.i.a abre “Chegança”, single que apresenta uma nova etapa de sua trajetória e antecipa “Boradale”, segundo álbum autoral da cantora paraibana.
Depois de “Luminosa”, lançado em 2025, a artista amplia sua pesquisa musical aproximando suas próprias composições do coco de roda e de referências culturais diretamente relacionadas à Paraíba, território que ocupa papel central no conceito do próximo disco.
“Chegança” também carrega uma história pessoal de retomada. A composição nasceu após um período em que M.a.r.i.a precisou se afastar do canto e, meses depois, encontrou novamente na música uma forma de expressão.
“Chegança” representa um recomeço
Segundo M.a.r.i.a, cerca de duas semanas depois do lançamento de “Luminosa”, uma rotina intensa de trabalho foi seguida por uma crise posteriormente diagnosticada como Síndrome do Pânico e Ansiedade Generalizada. Durante o período, a artista conta que chegou a parar de cantar.
Seis meses depois, em um momento de oração em seu quarto, a vontade de fazer música reapareceu.
Acompanhando a própria voz com palmas no ritmo do coco de roda, M.a.r.i.a começou a desenvolver aquilo que se transformaria em “Chegança”.
“Batizei de Chegança porque senti a chegada dessa nova fase, desse renascimento não só enquanto pessoa, mas também enquanto artista”, explica.
A faixa representa ainda a primeira experiência da cantora com uma composição autoral construída a partir do coco de roda.
Coco de roda conduz nova sonoridade
A produção musical e os arranjos são assinados pelo pernambucano Yuri Queiroga, vencedor do Latin Grammy em trabalho ao lado de Elba Ramalho.
Na gravação, a percussão de Cassicobra utiliza tambores, pandeiro e triângulo, enquanto a viola criada por Yuri se une às vozes para construir uma atmosfera inspirada nas tradicionais rodas de coco.
“A energia que primeiro me guiou foi a de celebração por estar viva e cantando”, conta M.a.r.i.a.
O single foi gravado nos estúdios Aláfia Musical e Peixe Boi, em João Pessoa, e conta ainda com coro de Nalva de Rita de Chicó e Luana Flores. A mixagem e masterização ficaram sob responsabilidade de Jader Finamore.
Encontro com Nalva de Rita de Chicó
“Chegança” também promove o encontro de M.a.r.i.a com a mestra de coco Nalva de Rita de Chicó, liderança do Quilombo Caiana dos Crioulos, em Alagoa Grande, na Paraíba.
As artistas se conheceram durante o Festival Pretitudes e passaram a definir a conexão entre elas como um “encontro de ancestralidades”.
“Quando Mestra Nalva chega na minha vida, ela reacende uma chama em mim de acreditar novamente na potência dos encontros”, afirma M.a.r.i.a.
A parceria coloca lado a lado diferentes gerações e experiências, reforçando o caráter coletivo que acompanha toda a concepção do single.
Clipe foi gravado no Quilombo Caiana dos Crioulos
A relação com o território também está presente no videoclipe de “Chegança”.
Com direção criativa de Sibely Marques, a produção foi gravada no Quilombo Caiana dos Crioulos, com participação da própria comunidade e do coletivo que acompanha Nalva em suas apresentações.
As imagens exploram dança, canto e convivência, além da transmissão de tradições culturais entre diferentes gerações.
“É trazer a ideia de que, de fato, a resistência é coletiva. Ninguém faz nada sozinho, ninguém chega sozinho. É o coletivo que faz a gente se reerguer e continuar mais forte”, explica M.a.r.i.a.
“Boradale” terá dez músicas autorais
“Chegança” funciona como a primeira apresentação do universo de “Boradale”, segundo álbum autoral de M.a.r.i.a.
Contemplado pelo Edital PNAB Paraíba de Fomento a Projetos de Música, o disco terá dez canções autorais, direção musical da própria cantora e produção e arranjos de Yuri Queiroga.
A Paraíba ocupa o centro da obra. Entre as referências utilizadas pela artista estão o Rio Paraíba, o mar de Cabedelo, a praia de Cabo Branco, o Jardim Botânico e a cena cultural de João Pessoa.
“O Boradale é a minha Paraíba, é minha identidade cultural, é onde cresci e me tornei artista. Então, também é uma celebração da minha identidade”, define.
Formada em Música e mestre em Etnomusicologia pela UFPB, M.a.r.i.a desenvolve uma trajetória que aproxima performance, pesquisa e música nordestina. Em 2025, a artista participou da WOMEX e esteve entre as 20 mulheres selecionadas, entre 800 inscritas, para o pitch do Women’s Music Event.
Agora, com “Chegança”, a cantora transforma uma experiência pessoal de retomada em uma obra construída coletivamente e abre oficialmente os caminhos para “Boradale”.